Uma escrita sem adornos, focada no enredo
A prosa é veloz e sem rodeios, dita o essencial. É um traço que, de resto, se tem tornado frequente na literatura brasileira: menos dada a maneirismos e a voltas supérfluas, e muitas vezes mais empenhada em fazer avançar a história. Timerman desenha um enredo que poderia acontecer em qualquer tempo, mas que aqui ganha nitidamente a moldura do presente.
Mirela e Pedro: amor imediato, perda prolongada
Mirela é uma mulher realizada e bem-sucedida, que conhece Pedro através de uma aplicação. A partir desse encontro, instala-se um amor súbito - e, acima de tudo, uma perda que se arrasta. O abandono, a que o texto chama ghosting - o desaparecimento dele, sem conversa nem justificação, apenas porque sim - deixa um rasto de humilhação e de devastação.
O ghosting e o luto suspenso na narrativa de Timerman
Vemo-la, então, a tentar fazer o luto de uma relação interrompida a meio: sem discussão, sem afastamento progressivo, apenas um corte limpo que a devolve a perguntas e a pontas soltas que nunca conseguirá unir. Três meses bastam para acumular destroços.
O livro escolhe habitar esse intervalo de suspensão e fixa-se mais no vazio do que na relação. Ao não haver confronto, não há lugar para catarse - nem sequer para a explicação de um conflito que se tenha tornado visível. O ghosting, fenómeno contemporâneo e com marca geracional, surge como uma rejeição levada ao limite: uma violência silenciosa que bloqueia o luto.
Mirela fica aprisionada num circuito de interpretações, e o leitor tenta decifrar em paralelo, apoiado nos mesmos dados e a desembocar no mesmo nada. Mesmo que a narrativa pareça não ultrapassar a sensação da personagem, importa notar que Timerman capta com precisão o estado de quem imagina um futuro a dois e, logo depois, fica com os estilhaços e o oco.
E, embora o pensamento da protagonista rode sobre si próprio, esse movimento - por vezes monótono do ponto de vista narrativo - reproduz com acerto a imobilidade de uma ausência que não deixa avançar. Também aqui o estilo contido da autora joga a favor do texto: ao recusar o excesso de dramatização, cria um contraste que permite observar a dor, em vez de a inflacionar.
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