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FIMFA: A Tarumba e os “Crankies de Fazer Chorar as Pedras da Calçada” em Lisboa

Homem manipula marionetas num cenário fechado com menino a observar num teatro antigo.

Onde é que as raparigas levam o carro aos 100 km/h, dão boleia a rapazes giros parados na berma, travam a fundo com consequências fatais e metem óculos escuros porque teimam em ir para a praia em plena caloraça, sabendo que lá vão dar com o namorado e “a outra”? E onde é que os rapazes repetem, com uma insistência quase teimosa, que são infelizes - e, no entanto, toda a gente faz tudo isto a cantar - enquanto as imagens disparam em sequência, com cores capazes de fazer corar os mais extravagantes cocktails com sombrinha? No FIMFA, claro, quando A Tarumba apresentar os seus “Crankies de Fazer Chorar as Pedras da Calçada” (São Luiz, em Lisboa, a 7, 8 e 9 de maio).

FIMFA e A Tarumba: a casa das marionetas e formas animadas

Para quem ainda não tem isto no radar: A Tarumba é uma Companhia de Teatro de Marionetas e de Formas Animadas e é, há 26 anos, a produtora do FIMFA. A direção artística - Luís Vieira e Rute Ribeiro - é tão delirante quanto a tal rapariga acelerada, mas sem nunca, nunca, nunca se espatifar. Nunca.

Em vez disso, Vieira e Ribeiro têm vindo a erguer um dos melhores festivais de que há memória em Portugal, tanto no teatro em geral como no território específico das Marionetas e Formas Animadas.

Grandes obras literárias recriadas no FIMFA

Este ano, por exemplo, surgem três espetáculos que refazem grandes livros - cada um à sua maneira e com um formato cénico diferente:

  • “Hamlet Sou Eu”, do Teatro Praga, reconta a peça de Shakespeare com dois atores e um conjunto vasto de objetos, de comprimidos efervescentes a creme hidratante e fio dentário (Teatro Taborda, em Lisboa, a 16 e 17).
  • “Louco”, da Compagnie Tchaïka, parte de “Diário de um Louco”, de Gógol, para construir um espetáculo centrado numa marioneta em tamanho humano, manipulada por duas artistas (Teatro Variedades, em Lisboa, a 22 e 23).
  • A companhia Karyatides - que já trouxe “Frankenstein” e “Os Miseráveis” - investe agora em “Crime e Castigo”, numa versão feita com pequenas figuras, vários objetos e uma dramaturgia que se afunda no universo profundo de Dostoiévski (Teatro do Bairro, em Lisboa, 28, 29 e 30).

Projeto Transport: impacto dos transportes e teatro de objetos

Num registo igualmente “grave”, há ainda dois espetáculos integrados no Projeto Transport, do qual A Tarumba faz parte. Trata-se de uma rede que junta seis teatros de marionetas em torno de um projeto europeu dedicado ao impacto dos transportes no mundo contemporâneo.

Entre as propostas, contam-se “Ponto de Viragem”, do Alfa Theatre, sobre o incêndio numa plataforma de exploração petrolífera, e “Partida”, centrado numa família que perde a casa nas cheias de 2023, na Eslovénia. Aqui, o dispositivo é o teatro de objetos, com figuras hiper-realistas em miniatura.


Abertura e outros destaques: Wakka Wakka e Johanny Bert

O festival abre com “Morto como um Dodó”, dos Wakka Wakka (São Luiz, a 7, 8 e 9). Dois esqueletos descem às profundezas do mundo (ou será ao mundo das profundezas?) em busca dos ossos que lhes faltam e, pelo caminho, enfrentam o Rei dos Ossos e a sua filha maléfica. Entretanto, começam a nascer penas num dos exploradores - o Dodó, uma ave hoje extinta - e, a partir daí, acontece um sem-fim de coisas num universo de teatro de variedades, povoado por criaturas fantásticas e maravilhosas, onde tudo é simultaneamente escuro e brilhante, e onde a luz tem qualquer coisa de mágico.

Quase em simultâneo, chega “Cabaré Amor+Hen”, de Johanny Bert e do Théâtre de Romette. Hen, a marioneta de identidade não normativa e atitude irreverente que já passou por Portugal com o seu criador, regressa agora num espetáculo de cabaré com novas canções sensuais, ousadas e provocantes. Mágico.

Um território onde todas as artes se cruzam

Nunca é demais voltar a dizê-lo: o universo das marionetas e das formas animadas tornou-se, há já muitos anos, o lugar onde surgem algumas das propostas mais estimulantes das artes cénicas.

Artes plásticas, cinema, música, dança, teatro, literatura, circo - praticamente todas as linguagens acabam por se tocar neste território composto, aberto e inclusivo. No FIMFA, cabe sempre tudo: as tradições, as apostas inovadoras, as diferentes escolas, a transmissão de saberes. O reconhecimento internacional do festival é, ao mesmo tempo, prova e resultado desse mérito.

Nesta edição, há mais de vinte espetáculos diferentes, sessões de cinema, conversas com os artistas e aulas magistrais. Está tudo na página do festival.

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