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Prova de vinhos com idade: amigos, leilão e descobertas

Garrafas e copos de vinho branco numa mesa de madeira com quatro pessoas a degustar vinho e a consultar um catálogo.

Provar vinhos antigos: entre o prazer e a dúvida

Juntar amigos à mesa com o pretexto de uma prova de vinhos com idade costuma ser garantia de boa companhia. Mesmo estando felizmente ultrapassada a noção de que “quanto mais velho melhor!”, abrir vinhos antigos continua a ser uma excelente oportunidade para descobrir coisas novas. Muitas vezes, é também receita para desilusões - mas isso faz parte da experiência: estará o vinho ainda em condições? A rolha terá resistido? E este aroma, o que será? Mofo? Problema de vasilha? Má conservação? Vai ter muito depósito? Vale a pena decantar ou serve-se assim mesmo? As perguntas acumulam-se, e é precisamente essa incerteza que torna a prova tão apelativa.

Costumo fazer este tipo de provas com alguma frequência, quase sempre com vinhos comprados em leilão. E, como é fácil imaginar, comprar vinho em leilão é uma autêntica lotaria. Nunca sabemos por onde a garrafa andou, que variações de temperatura apanhou ou que “tratos de polé” sofreu; por isso, se noto que o preço do leilão está a escalar demasiado, prefiro não arriscar.

Comprar em leilão: nível do vinho e estado do rótulo

Como nos catálogos de leilões, regra geral, aparece a fotografia da garrafa, há dois sinais que podem apontar em direções opostas. Por um lado, se o nível do vinho estiver muito baixo, aumenta bastante a probabilidade de já não estar bom. Por outro, quando o rótulo está meio rasgado, o mais provável é o preço cair - o que pode ser vantajoso para quem compra para beber.

Sabe-se que há quem compre para coleção e, nesse caso, um rótulo danificado desvaloriza a garrafa. Para o colecionador é um problema; para nós, pode ser precisamente a oportunidade.

Na prática: Frei João branco 1974, Caves S. João e o papel da acidez

Para ilustrar, na última prova que organizei apareceu um Frei João branco 1974. O rótulo estava num estado miserável, parecia roído por ratos, mas o vinho revelou-se irrepreensível. Tinha notas terpénicas de querosene, sinal de uma evolução positiva, mas também sugestivas de uma possível integração no lote de castas não necessariamente bairradinas. À época, o facto de a região ainda não estar demarcada dava aos produtores uma margem de manobra maior na composição dos lotes.

No caso concreto, as Caves S. João não eram (como outras caves da região) produtoras de uvas; eram armazenistas: compravam vinho já feito e, depois, faziam estágio e guardavam-no nas suas próprias instalações.

Tenho de admitir que me tenho cruzado com muitos momentos de grande prazer com vinhos velhos destas caves. E, sobre este tema, convém nunca esquecer a máxima que já aqui referi antes: não há bons vinhos velhos, há boas garrafas de vinhos velhos! Ao lado de uma garrafa extraordinária - e por vezes até da mesma caixa - pode surgir outra em estado lastimável.

Na edição mais recente desta prova, foram abertos 20 vinhos, 10 brancos e 10 tintos. Os brancos costumam comportar-se melhor do que os tintos, creio que por causa da acidez elevada que podem apresentar, funcionando como fator de conservação e ajudando-os a manterem-se em boa forma.

A relevância da acidez é tanta que até vinhos feitos com castas algo desconsideradas para vinhos de consumo mostraram interesse. Foi o caso da Tália (Ugni-Blanc, em Cognac), uma variedade muito produtiva, associada à destilação e à produção de aguardente, que se revelou bastante interessante 50 anos depois de ter sido colocada no mercado.

A marca - de uma casa agrícola ribatejana, Francisco Ribeiro - foi, nos anos 70 do século passado, uma referência obrigatória, até porque colocava à venda vários vinhos brancos varietais, algo muito inovador para a época. Fui grande consumidor de todos eles, e também dos rótulos, numa altura em que, para descolar rótulos, bastava mergulhar a garrafa num balde com água. Quanto pagava então? Um pouco menos de 1 cêntimo, a preços atuais. É só fazer as contas…

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