Saltar para o conteúdo

Relojoaria Marcolino do Porto compra edifício junto ao Majestic e abre em 2027 espaço assinado por Siza Vieira

Relógio antigo, ferramentas e duas pessoas, um idoso e um jovem, a trabalhar numa mesa junto à janela.

A icónica Relojoaria Marcolino, no Porto, adquiriu o edifício contíguo ao Majestic e prepara a abertura, em 2027, de um novo espaço com assinatura de Siza Vieira.

Quando decidiu baralhar o destino e ir além do percurso de ourives que a herança familiar, com quatro gerações de raízes gondomarenses, parecia traçar, Paulo Neves não pensava "chegar até aqui": a liderar a histórica Relojoaria Marcolino, que fez crescer, reposicionou como casa de luxo e conduziu até ao centenário, assinalado este ano.

Ao seu lado está Miguel, o filho mais velho, que já segue o caminho do pai e aponta ao negócio, hoje nas mãos da família Neves há quatro décadas, uma vida de "mais cem anos, pelo menos". Com 31 anos, participa na afinação de uma nova fase de expansão: no prédio comprado aos proprietários do mítico Majestic - mesmo ao lado do café e em frente à loja, na outra esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manuel, onde durante vários anos operou um banco - vai nascer, em 2027, um ponto de venda de "alto luxo". A ambição passa por reunir "até cinco marcas, com mais espaço do que aquele que têm atualmente", incluindo a Rolex, da qual a relojoaria é distribuidor oficial.

A operação inclui também a transformação dos três pisos superiores do edifício em "habitações de gama alta", com tipologias T2 e T3, naquela que será a estreia da família no imobiliário. Com projetos do arquiteto Álvaro Siza Vieira, a nova loja e os seis apartamentos representam um investimento total de 16 milhões de euros: 13 milhões correspondem à compra do prédio à família Barrias, ficando os restantes três destinados aos projetos e à obra de remodelação.

Batizada Marcolino 1926, a futura loja terá "um bar" e procurará oferecer um ambiente ainda mais sofisticado do que o espaço criado em 2011 para o segmento de luxo, instalado na Rua de Santa Catarina, onde durante décadas funcionou o pronto a vestir Casa Inglesa. "Queremos fazer da venda uma experiência", antecipa Paulo Neves, sublinhando que essa filosofia já orienta o atendimento e será reforçada no novo local, com 250 metros quadrados.

"Fábrica de sonhos"

Com quase 20 anos de trabalho lado a lado com o empresário, José Oliveira - 62 anos e quatro décadas de experiência como comercial de ourivesaria em algumas das melhores lojas da Baixa - passará a receber os clientes no novo espaço. Aí, continuará a considerar "importantíssima a relação de confiança" construída com quem compra, não só pela proximidade criada, mas também porque os artigos podem atingir valores na ordem das centenas de milhares de euros.

"É uma fábrica de sonhos. Os clientes estão sempre à procura de sonhos, e nós tentamos realizá-los", afirma, lembrando ainda que "o mercado estrangeiro é fundamental" e que "50 a 60% dos clientes são turistas".

Entretanto, a oferta de gama média continuará na loja da Rua de Passos Manuel, agora sob a designação de Marcolino Link. Foi para essa artéria que o fundador, António Marcolino, transferiu o negócio em 1937, depois de o ter aberto 11 anos antes na vizinha Rua de Santo Ildefonso. Na altura, instalou-se no número 130, numa área com menos de metade da que o espaço viria a ocupar mais tarde, quando a família Neves ampliou a relojoaria até ao Restaurante Escondidinho, no início da década de 1990, após adquirir uma antiga loja de carimbos e avançar para o primeiro andar, onde se vendiam discos de vinil.

Nesse piso - onde atualmente funciona a oficina dos relojoeiros - foi criada uma área dedicada aos relógios Swatch, que então viviam um sucesso estrondoso e dominavam as vendas.

Ao balcão, numa presença que evocava uma senhora Swatch, estava Anabela, filha de Fernando Oliveira, o colaborador que acompanhou Paulo Neves desde os primeiros passos. Foi em 1983 que o jovem de Gondomar chegou ao Porto para abrir, aos 23 anos, a primeira loja - a ourivesaria Opala, no Centro Comercial Stop - tornando-se "o primeiro da família a vir para o comércio". Três anos depois, em 1986, comprou a Marcolino ao ourives José Moura e manteve a "parceria muito boa" com o funcionário de sempre.

Relógio para a cidade

Com os novos projetos a avançar, começam também a ser ajustados os tempos para a celebração dos cem anos, que incluirá várias iniciativas. Estão previstas a publicação de um livro sobre a história da casa, uma intervenção artística aérea na rua - com candidaturas abertas até ao próximo dia 28 - e a oferta de um relógio à cidade. O gesto reforça uma ligação já existente: é graças à manutenção assegurada pela Marcolino que o relógio da Câmara marca diariamente as horas certas.

"Tenho a sorte de não vir trabalhar: venho fazer o que quero e gosto"

Alto e robusto, António Alves senta-se diante da bancada elevada, colocada junto à janela com vista para a Rua de Passos Manuel, e, de repente, tudo parece diminuir: desde a tampa de um relógio totalmente desmontado até ao mais pequeno elemento entre as cerca de 300 peças que o constituem.

As mãos grandes movem-se com precisão, treinadas para lidar com componentes mais pequenos do que um grão de açúcar - alguns só identificáveis ao microscópio. As pinças tornam-se, quase sempre, prolongamentos dos dedos, e cada gesto obedece a um controlo rigoroso.

António é um dos quatro relojoeiros da Marcolino e garante que, para trabalhar todos os dias a este nível de detalhe, "é preciso gostar". A profissão entrou-lhe na vida por um acaso improvável: tinha 14 anos quando lhe disseram que "a relojoaria ia ser uma profissão com futuro" e decidiu não adiar. Procurou um relojoeiro em Grenoble, nos Alpes franceses, para onde a família, oriunda de Cabeceiras de Basto, tinha emigrado, e acabou por se apaixonar pelo ofício. "O relojoeiro disse-me: "António, pega na corda e põe-na dentro do tambor". Era uma fita com 40 centímetros, e consegui pôr", recorda.

Hoje, não se imagina noutra área. "Tenho a sorte de não vir trabalhar: levanto-me e venho fazer o que quero e gosto, sempre com entusiasmo", diz o relojoeiro, que tem 50 anos e já chegou a acertar relógios de aeronaves de combate.

Relógios dos F-16

Foi na Suíça que completou uma "formação profissional muito exigente", onde absorveu a "disciplina e a metodologia" que ainda hoje aplica. As certificações que possui permitem-lhe fazer a "reparação e manutenção" de relógios de várias marcas. É um trabalho de bastidores, realizado na oficina, que tanto pode ficar resolvido em horas como prolongar-se por dias, dependendo da complexidade.

"Já reparei relógios com mais de mil peças, e demorei três dias. É mecânica pura", afirma, orgulhoso do percurso que começou em França e que o levou, entretanto, à Força Aérea, onde chegou a "reparar os relógios dos [aviões caça] F-16 e a dar formação aos profissionais, na Base de Monte Real".

Saber mais

Milhares de euros
Os relógios de luxo vendidos pela Marcolino têm preços entre os sete mil e os 90 mil euros. Ainda assim, já foram vendidos modelos por 130 mil euros.

500 mil
É o total de relógios que a gestão da Marcolino estima ter sido vendido na loja desde a fundação.

Uma cidade cheia de negócios centenários nas mãos de gerações

Casa Januário - Mercearia continua na família
A mercearia, situada entre as ruas do Bonjardim e Formosa, também assinala o centenário neste ano e está já na terceira geração da família do fundador, Januário Ferreira.

Bazar Paris - Uma montra de brinquedos desde 1902
Na Rua de Sá da Bandeira, em frente à Praça de D. João I, comemorou em março 123 anos, com Luísa Vilas-Boas, bisneta do fundador, à frente da loja de brinquedos.

Casa Hortícola - Sobrinho continua legado
No Mercado do Bolhão, entre as ruas Formosa e Sá da Bandeira, António Ferreira dá continuidade ao legado do tio, António Ferreira de Sousa, mantendo viva a casa fundada em 1921.

Ourivesaria Brilhante - Loja de joias é a mais antiga da rua
Perto da Praça dos Poveiros, é o negócio mais antigo da Rua de Santo Ildefonso. Foi fundado em 1912 e está há três gerações nas mãos da família Pessoa.

Benedito Barros - Sobreviveu à pressão imobiliária
A loja de tecidos criada pelo emigrante que lhe deu o nome está a celebrar cem anos. Em 2024, a pressão imobiliária obrigou a mudança para outro espaço: funciona agora no Beco de Passos Manuel.

Livraria Moreira da Costa - Nas mãos da quinta geração
Fundada em 1902 por José Moreira da Costa, está já na quinta geração da família. Fica na Rua de Avis, no edifício do Hotel Infante Sagres, e é a livraria alfarrabista mais antiga do Porto.

Confeitaria do Bolhão - Salão de chá encantou gerações
Abriu em 1896, em frente ao Mercado do Bolhão, e tornou-se conhecida pelo salão de chá requintado, então muito frequentado pela burguesia da cidade.

Botónia - Bisneta continua a vender botões
Arnaldo Martins de Sousa criou o negócio de botões em 1908, no início da Rua de Cedofeita. Hoje, é a bisneta quem está ao balcão da retrosaria.

Casa Granado - Expandiu negócio de ferragens
Em Cedofeita, perto da Rua dos Bragas, funciona desde 1913 o negócio de ferragens e utilidades para a casa, que cresceu e abriu uma segunda loja.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário