Luta com perspetivas profissionais fracas e rendas incomportáveis - e, ainda assim, é suposto tornar-se a geração mais rica de sempre.
No TikTok, fala-se de burnout em estágios; nas grandes cidades, encontrar um quarto por menos de 800 euros é quase impossível: a Geração Z tornou-se o rosto público da frustração, da incerteza e da ansiedade em relação ao futuro. Ainda assim, uma grande análise da Bank of America traça um cenário que poucos antecipariam: precisamente estes jovens deverão, dentro de algumas décadas, controlar a maior fatia da riqueza mundial - e remodelar a economia de forma profunda.
A Geração Z está encurralada - e, ao mesmo tempo, acumula património
Quem hoje tem pouco mais de 20 anos vive, muitas vezes, um contraste difícil de explicar: formação de topo, estágios no estrangeiro, competências digitais - mas contratos a prazo, salários de entrada no limite e uma procura de casa que parece um segundo emprego a tempo inteiro. Muitos jovens recusam trabalhos que consideram vazios de sentido ou exploratórios. Para uma parte da Geração Z, o horário fixo das 9 às 17 soa a herança de outro século.
Apesar deste quadro precário, os números contam outra história. Segundo a Bank of America, a Geração Z já juntou, à escala global, um património de cerca de 9.000 mil milhões de dólares norte-americanos - e em apenas dois anos. Até 2030, esse montante deverá subir para 36.000 mil milhões e, até 2040, para uns expressivos 74.000 mil milhões.
A atual crise do mercado de habitação e de trabalho esconde que, nos bastidores, se aproxima uma gigantesca transferência de património para os grupos etários mais jovens.
Em paralelo, a Geração Z está a caminho de se tornar o maior grupo etário do mundo: na próxima década, deverá representar cerca de 30% da população global. A soma de dimensão e poder de compra torna-a um fator incontornável para empresas e governos.
A “Grande Transferência de Património”: milhares de milhões mudam de geração
O motor desta transformação é um processo demográfico tão simples quanto colossal. Nas próximas duas décadas, poupanças, imóveis e carteiras de investimentos dos baby boomers - e da geração anterior - serão transmitidos em larga escala por via de herança. Nos EUA e noutros países ocidentais, os analistas chamam-lhe a “Grande Transferência de Património”.
De acordo com os cálculos da Bank of America, até 2045 deverão passar cerca de 84.000 mil milhões de dólares norte-americanos das gerações mais velhas para as mais novas. A maior parte desse valor chega primeiro à Geração X e aos millennials, mas os adultos jovens de hoje também beneficiam cedo:
- Uma parte significativa da Geração Z deverá herdar ainda nos 20 ou 30 anos.
- Cerca de 38% destes anos de nascimento deverão participar diretamente neste grande impulso de heranças.
- Muitos não recebem um património individual gigantesco, mas sim capital suficiente para alterar de forma clara escolhas de consumo e de vida.
A isto soma-se o rendimento do trabalho: à medida que mais pessoas da Geração Z entram em profissões bem pagas, o efeito combinado de salário e herança intensifica-se. Segundo a Bank of America, o património deste grupo etário cresceu, só em fevereiro de um determinado ano analisado, oito por cento - e estes aumentos não deverão ser casos isolados.
Como os jovens adultos estão a mudar as suas prioridades
O mais interessante é perceber onde a Geração Z coloca o dinheiro. Como a casa própria parece, para muitos, fora do alcance e as rendas absorvem uma fatia cada vez maior do rendimento, as prioridades financeiras estão a mudar de raiz. Objetivos clássicos - comprar habitação, financiar um automóvel, constituir família cedo - perdem protagonismo.
Vários estudos indicam que muitos jovens preferem usar o orçamento apertado em “pequenos momentos de luxo”. À primeira vista pode parecer superficial, mas há um padrão consistente por trás:
- prioridade a viagens, festivais e experiências, em vez de planos de longo prazo centrados em imóveis
- despesas elevadas em compras online e produtos de lifestyle
- maior disponibilidade para pagar por saúde mental, coaching ou fitness
- sensibilidade crescente à sustentabilidade e à responsabilidade social das marcas
Quando alguém já não vê qualquer hipótese de ter casa própria, prefere investir no presente - em experiências que ninguém lhe pode tirar.
É precisamente esta lógica de consumo que torna a geração especialmente relevante para as empresas. Se, dentro de poucos anos, ao rendimento atual se juntarem heranças significativas, um estilo de vida propenso a gastar encontrará meios financeiros em subida. Os analistas antecipam o surgimento de um dos grupos de consumidores mais influentes de sempre.
O que este boom significa para a economia e para a sociedade
A Bank of America considera que esta geração poderá reconfigurar a economia mais do que qualquer outra antes dela. Não se trata apenas de novos produtos e marcas a ganhar escala, mas de mudanças em mercados inteiros. As empresas já observam ao detalhe como pensa e decide a Geração Z - das plataformas de streaming às aplicações financeiras.
Tendências típicas que os dados sugerem:
- Digital first: quase todas as operações financeiras passam a ser feitas por app. Bancos com balcões, contratos em papel e formulários complexos perdem muita relevância.
- Trabalho flexível: quem tem perspetiva de património tende a recusar mais facilmente empregos mal pagos. Modelos remotos, semana de quatro dias e trabalho por projeto tornam-se mais comuns.
- Consumo orientado por valores: marcas sem uma posição credível sobre clima, diversidade e justiça enfrentam maior pressão.
- Novas formas de investir: ETFs, investimento coletivo (crowdinvesting), cripto - muitos jovens experimentam caminhos de investimento que os pais evitaram durante muito tempo.
Segundo o estudo, a Geração Z pode vir a ser uma das gerações mais “disruptivas” para a economia, os mercados e os sistemas sociais. Ou seja: questiona estruturas existentes, quebra rotinas antigas e obriga as empresas a repensar decisões.
Crise de habitação apesar de património recorde: isto faz sentido?
À primeira vista, parece uma contradição: num lado, estatísticas sobre patrimónios de milhares de milhões; no outro, 20 candidaturas para conseguir um quarto numa casa partilhada. No entanto, as duas realidades podem coexistir. A elevada proporção do custo de vida - em alguns países, segundo o estudo, seriam necessários 146% de um salário mínimo para “aguentar” minimamente as despesas - pesa no dia a dia da Geração Z.
As previsões de património referem-se sobretudo a tendências de longo prazo, heranças e investimentos. No curto prazo, a pressão mantém-se muito elevada. Quem paga rendas altas consegue poupar menos. Por isso, muitos jovens ficam mais tempo em casa dos pais, fazem deslocações longas ou evitam viver em grandes cidades.
Daí surgem tensões: estatisticamente, o património da geração cresce; individualmente, muitos sentem-se a ficar para trás. A política e a sociedade enfrentam o desafio de lidar com uma juventude que, nos números, enriquece, mas que no quotidiano muitas vezes se sente pobre.
O que “património” significa realmente nos estudos
Há um ponto que frequentemente gera confusão: quando os analistas falam do património de uma geração, não estão a dizer que cada pessoa desse grupo vai ser rica. Estão a somar tudo o que, no total, o conjunto desse ano de nascimento detém - desde depósitos e ações até uma casa herdada.
Isto cria três efeitos importantes:
- poucas famílias muito ricas puxam o valor total para cima de forma significativa
- muitas outras recebem heranças pequenas - ou não recebem nada
- dentro da mesma geração, as diferenças podem ser enormes: de dívidas elevadas a uma moradia herdada
Para a Geração Z, esta desigualdade deverá tornar-se uma questão central. Quem recebe património pode assumir carreiras mais arriscadas, investir em novos projetos ou fazer vários anos sabáticos. Quem não recebe, vive na mesma economia de consumo, mas com uma margem muito menor - uma tensão que pode agravar conflitos sociais.
Como os jovens se podem preparar
Para cada pessoa, a pergunta é prática: o que fazer com estas conclusões? A vaga de heranças não pode ser acelerada nem distribuída de forma automaticamente justa. Ainda assim, os jovens adultos que, pelas estatísticas, têm probabilidade de estar entre os futuros vencedores do património podem definir algumas escolhas.
- Investir cedo em literacia financeira: compreender juros, ETFs, impostos e direitos no arrendamento.
- Aplicar quantias pequenas de forma consistente, em vez de as gastar totalmente em consumo.
- Falar de forma aberta em família sobre heranças, imóveis e planeamento.
- Tomar decisões de carreira não apenas pelo salário, mas também pela curva de aprendizagem e pela estabilidade.
Estes passos não mudam a estatística global, mas criam uma almofada individual. Porque, mesmo que uma geração fique mais rica em média, a questão decisiva continua a ser quem, na prática, beneficia - e quem não.
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