Num país asiático sinónimo de alta tecnologia, fraldas usadas acumulam-se em incineradoras e aterros. Agora, um grande fabricante quer transformá-las novamente em produtos novos. A razão é clara: a população está a envelhecer a um ritmo acelerado, a procura de proteção descartável para adultos cresce e as autarquias já quase não sabem onde colocar montanhas de resíduos.
Fraldas como problema de lixo: quando a idade enche os contentores
O Japão é, há anos, um caso de referência no envelhecimento demográfico. A natalidade continua a cair, ao mesmo tempo que a percentagem de pessoas com mais de 65 anos sobe de forma constante. Esse fenómeno já se nota, de maneira muito concreta, na gestão de resíduos: o mercado de fraldas e resguardos para adultos ultrapassou há muito o de fraldas para bebés.
De acordo com dados do setor, em 2024 o país produziu cerca de 9,6 mil milhões de fraldas e produtos de proteção para adultos, face a 8 mil milhões de fraldas para bebés. O que pode parecer um tema marginal está a transformar-se numa pressão real para regiões inteiras.
"Até 2030 rechnet die Industrie mit 2,6 Millionen Tonnen benutzter Windeln pro Jahr in Japan – ein Plus von fast 20 Prozent innerhalb einer Dekade."
Por enquanto, a maioria destes resíduos acaba na incineração ou é enterrada. Ambas as soluções têm custos elevados, libertam CO₂ e outros poluentes e colocam os sistemas municipais de recolha e tratamento sob tensão - sobretudo em zonas rurais, onde vivem muitos idosos.
Um grupo japonês arrisca um avanço na reciclagem
A Unicharm, fabricante de fraldas, está a testar um método para que produtos de higiene usados possam voltar a dar origem a novos. A empresa apresenta-o como uma estreia à escala mundial: ciclos fechados concebidos especificamente para fraldas descartáveis.
O teste decorre, neste momento, em duas autarquias da província de Kagoshima, no sul do país. Ali, os responsáveis locais queixam-se há anos de instalações de tratamento sobrecarregadas. Com o novo sistema, dizem ter conseguido reciclar cerca de 80% dos resíduos - quatro vezes mais do que a média nacional.
Como uma fralda é desmantelada nos seus componentes
A ideia-base da reciclagem de fraldas não é totalmente nova. Há algum tempo que é possível separar estes produtos, depois de usados, em diferentes frações, que podem ser reaproveitadas, por exemplo, como papel higiénico ou outros materiais auxiliares. O processo parece complexo, mas segue etapas bem definidas:
- recolha das fraldas usadas em recipientes específicos
- trituração de todo o material numa unidade de tratamento
- lavagem e higienização
- separação em fibra de papel, frações plásticas e granulados superabsorventes
A partir das fibras podem fabricar-se, por exemplo, papel higiénico ou cartão. O salto tecnológico está, agora, em preparar essa mesma fibra - conhecida no setor como “polpa” - de forma a que volte a ser incorporada em fraldas novas.
Ozono em vez de incineração: o núcleo do novo processo
A polpa é o elemento central de qualquer fralda descartável: absorve os líquidos e ajuda a manter a superfície o mais seca possível. Para poder ser usada novamente após a utilização, é necessária uma descontaminação particularmente rigorosa.
"Unicharm setzt auf ein Ozonverfahren, das die Faser nicht nur sterilisiert, sondern zugleich bleicht und Gerüche neutralisiert."
O ozono é uma forma especial de oxigénio, com forte poder oxidante. Em sistemas fechados, é utilizado, entre outros fins, na desinfeção de água potável ou na indústria alimentar. No contexto da reciclagem de fraldas, ataca microrganismos, fragmenta moléculas responsáveis por odores e clareia o material.
Depois deste tratamento, a polpa pode voltar a ser utilizada como componente principal em produtos novos. O objetivo do grupo é obter uma matéria-prima segura e de elevada qualidade, capaz de competir com material virgem.
Próximo passo: recuperar também plástico e superabsorvente
Até agora, o projeto tem incidido sobretudo na fração de fibras. A Unicharm pretende, até 2028, recuperar e reutilizar de forma padronizada as películas plásticas e os granulados superabsorventes. Se tal for possível, o ciclo ficará quase totalmente fechado.
| Componente | Função na fralda | Utilização prevista na reciclagem |
|---|---|---|
| Polpa (fibra) | Absorção e distribuição de líquidos | Novo núcleo para fraldas recicladas |
| Películas plásticas | Proteção contra fugas, estabilidade de forma | Novas películas ou outros produtos de plástico |
| Superabsorvente | Elevada retenção de líquidos | Reutilização prevista em núcleos absorventes |
Pressão política: autarquias devem adotar a reciclagem
O Governo nacional acompanha o tema de perto. Até 2030, pelo menos 100 das mais de 1.700 autarquias do país deverão iniciar a reciclagem de fraldas, ou pelo menos analisá-la seriamente. A mensagem é inequívoca: resíduos de higiene não devem continuar a ter como destino quase exclusivo a incineração.
Para muitas câmaras municipais, a questão dos custos é determinante. As incineradoras são dispendiosas de operar e o espaço em aterro é limitado. Rotas de reciclagem podem, a prazo, reduzir taxas e melhorar a pegada climática. Ainda assim, a viabilidade do modelo depende muito da logística de recolha, do preço da energia e da cotação das matérias-primas recicladas.
Pressão de dados e controlo social como motores
No quadro das políticas de resíduos no Japão, surge um pormenor adicional: algumas cidades vão longe para forçar a separação correta do lixo. A cidade de Fukushima, por exemplo, pretende vir a divulgar os nomes de pessoas que não separam os seus resíduos.
Esta postura dura ilustra o grau de seriedade com que as autarquias encaram hoje a gestão de resíduos. Os produtos de higiene entram cada vez mais na mira, porque em muitas casas representam uma parte relevante do lixo indiferenciado.
Porque é tão difícil substituir fraldas
As fraldas descartáveis são alvo de críticas há anos. Geram grandes volumes de resíduos, incluem plásticos e aditivos químicos. Ao mesmo tempo, abdicar delas por completo é difícil para muita gente. Em lares e hospitais, e também para famílias com familiares dependentes, acabam por ser praticamente indispensáveis.
Alternativas reutilizáveis, como resguardos laváveis para incontinência, funcionam apenas até certo ponto no quotidiano - sobretudo quando a carga de cuidados é elevada ou não existe infraestrutura de lavagem adequada. Num país com muitos muito idosos e regiões pouco povoadas, estas soluções deparam-se rapidamente com limites.
"Recycling soll den Widerspruch lösen: Alltagskomfort für Betroffene, ohne dass Millionen Tonnen Müll dauerhaft verbrannt werden müssen."
Assim, a tecnologia assume um papel de ponte - entre a necessidade de conveniência e a urgência de poupar recursos.
O que outros países podem aprender com o modelo japonês
O desafio não é exclusivo do Japão. Na Europa, também aumenta o número de pessoas que precisam de cuidados, e a população muito idosa continua a crescer. Hospitais, lares e serviços de apoio domiciliário geram igualmente grandes quantidades de materiais descartáveis.
Até aqui, muitos países continuam a privilegiar a incineração em instalações modernas. Embora seja possível recuperar energia e calor, as matérias-primas perdem-se de forma irreversível. Uma abordagem de reciclagem como a do Japão pode abrir caminhos novos - desde que seja tecnicamente e economicamente transferível.
Para isso, são necessárias algumas condições:
- sistemas de recolha claros para fraldas e outros produtos de higiene
- vias de encaminhamento separadas para lares, hospitais e habitações
- padrões de higiene elevados nas unidades de reciclagem
- garantias de compra das matérias-primas recicladas por parte dos fabricantes
Riscos, questões em aberto e possíveis efeitos secundários
Por mais promissora que a tecnologia pareça, há pontos a esclarecer. A utilização de ozono tem de ser rigidamente controlada, pois o gás, em concentrações elevadas, é prejudicial à saúde. As instalações precisam de circuitos fechados e de tecnologia de filtragem segura.
Há ainda o consumo energético: conforme o mix elétrico, as poupanças de CO₂ podem reduzir-se se o tratamento exigir muita energia. Avaliações de ciclo de vida mais detalhadas serão decisivas para medir o benefício climático real.
O fator confiança também conta. Muitos consumidores são particularmente sensíveis quando se trata de produtos em contacto direto com a pele. As marcas terão de explicar com transparência como funciona o processo e que normas de segurança são aplicadas.
Como a reciclagem de fraldas pode mudar o quotidiano
Se a tecnologia avançar para uma escala ampla, o dia a dia de autarquias e famílias poderá mudar de forma visível. Podem surgir contentores dedicados a fraldas em prédios, dias de recolha separados ou sistemas de devolução em instituições de cuidados.
Para profissionais de saúde e cuidadores, isso pode significar mais trabalho de separação, mas também alguma redução do lixo indiferenciado. Os fabricantes ganham uma nova fonte de matéria-prima, porém serão mais pressionados a desenhar produtos fáceis de reciclar - por exemplo, com separação clara de materiais dentro da própria fralda.
A prazo, a tecnologia poderá ser alargada a outros produtos de higiene, como certos artigos médicos ou resguardos absorventes usados em hospitais. O essencial será a criação de normas comuns entre Estado, indústria e autarquias, e a capacidade de envolver a população. O Japão está, neste momento, a funcionar como um laboratório real, cujos resultados poderão ser observados muito além das suas fronteiras.
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