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Adizero Adios Pro Evo 3: supersapatilhas e a maratona abaixo das duas horas

Atleta amarrando os atacadores de um ténis durante preparação numa pista de corrida ao ar livre.

Quase tão relevante como o facto de o queniano Sabastian Sawe (1:59:30) e o etíope Yomif Kejelcha (1:59:41) se terem tornado nos primeiros a correr, de forma oficial, uma maratona abaixo das duas horas, em Londres, foi o calçado que levaram nos pés. Poucos dias antes, a Adidas tinha colocado no mercado as Adizero Adios Pro Evo 3, promovendo-as como as suas “primeiras supersapatilhas sub-100g”.

Para chegar a uma poupança de energia de 1,6% face à versão anterior, foram precisos três anos de investigação. O resultado é um par que, de acordo com a informação disponível na ligação de compra, pesa 99 g e custa €500.

Desde 2018, ano em que Eliud Kipchoge correu a Maratona de Berlim em 2:01:39, o recorde do mundo caiu quatro vezes. Até então, a melhor marca era 2:02:57, obtida em 2014 por Dennis Kimetto - um registo que, hoje, é apenas o 26.º melhor de sempre. O atletismo avançou embalado por um tipo de calçado que, na prática, voltou a desenhar a fronteira do possível.

Adizero Adios Pro Evo 3 e a corrida às supersapatilhas

Gonçalo Marta doutorou-se em Engenharia Biomédica, com foco em biomecânica aplicada ao desporto. Essa especialização levou-o à RunRepeat, uma empresa independente que analisa calçado e cujo método inclui, entre outras “torturas” ao material, cortar os modelos ao meio para aumentar o rigor das avaliações publicadas.

O “patologista” das sapatilhas explica que, na última década, as marcas alteraram a forma como desenvolvem calçado de corrida. Durante muito tempo, de uma versão para a seguinte, a prioridade foi “retirar peso, porque toda a gente achava que era só isso que se podia fazer para dar uma vantagem competitiva aos atletas”, até ao ponto de as sapatilhas ficarem tão finas que “pareciam uma folha de papel”.

Esse foco, porém, perdeu exclusividade quando o “paradigma mudou” e os fabricantes perceberam que podiam “trabalhar outras áreas da sapatilha” para ajudar os corredores a cortar tempo aos recordes pessoais. Gonçalo Marta aponta três “características principais” que passaram a ser afinadas com as sapatilhas mais robustas: a qualidade da espuma, a quantidade de espuma e a integração de uma placa de carbono.

A espuma responsiva e a placa de carbono são elementos preponderantes nos modelos recentes

Espuma, placa de carbono e retorno de energia

A espuma é a componente que gera o efeito de mola. Já a placa de carbono, quando existe, procura, segundo Gonçalo Marta, funcionar como uma “alavanca”: a ideia é que “o pé funcione todo como um bloco”, como se “as articulações dos dedos e do meio do pé se desligassem e o pé funcionasse como um todo”.

Ao reduzir a solicitação de certas “músculos e articulações que não vão ser tão sobrecarregados”, esta estrutura mais rígida “ajuda a poupar energia”, em grande parte graças a um maior “retorno de energia”.

As Adizero Adios Pro Evo 3 combinam estas duas lógicas. Por um lado, mantêm a aposta na leveza; por outro, não abdicam dos ingredientes que viraram o mercado do avesso. A proeza da Adidas insere-se numa disputa direta entre marcas - uma corrida tecnológica que foi detonada pela rival.

O que corremos para aqui chegar

Há uma década, nos Jogos Olímpicos de 2016, os três primeiros da maratona masculina competiram com um protótipo das ‘supersapatilhas’ que viriam a inspirar todas as restantes: as Vaporfly, mantidas em segredo até ao dia da prova. Ao cruzarem placa de carbono com uma entressola de espuma responsiva, chocaram com o paradigma das sapatilhas ultra-leves que dominava até então. Com esse desenho, a Nike prometia um desempenho 4% superior ao dos modelos anteriores e transformou a forma como se olhava para o calçado de corrida.

Depois de validar o potencial desta configuração maximalista, em 2017, três atletas foram escolhidos para tentar, pela primeira vez, baixar as duas horas na maratona. A iniciativa multimilionária da Nike aconteceu no circuito de Monza, em Itália, reunindo o queniano Eliud Kipchoge, o etíope Lelisa Desisa e o eritreu Zersenay Tadese - os melhores “biomotores” disponíveis para uma tarefa dessa exigência. A preparação foi minuciosa e incluiu a criação de um modelo específico: as Nike Zoom Vaporfly Elite.

Aviso de spoiler: nenhum deles chegou ao objetivo. Só em 2019, no INEOS 1:59 Challenge, em Viena, Eliud Kipchoge se tornou o primeiro corredor sub-2, ao completar 42,195 km em 1:59:40, com umas Nike Air Zoom AlphaFly Next%. O tempo não foi homologado por não ter sido alcançado em competição.

A influência das ‘supersapatilhas’ nos resultados levou a World Athletics a intervir em 2020. Entre outras regras, o organismo determinou que a altura da sola não pode exceder os 40 mm na zona do calcanhar.

Novos recordes e precauções

Com a porta entreaberta para esta revolução, os recordes têm caído na maratona e também noutras distâncias. Em 2025, Jacob Kiplimo correu a meia-maratona em 56:42, fixando o atual recorde do mundo. O ugandês é também o mais rápido de sempre nos 15 km desde que, em 2024, terminou a distância em 40:42. Nos 10 km, ninguém foi mais veloz do que o queniano Rhonex Kipruto em 2020 (26:24). E, nos 5 km, o etíope Berihu Aregawi lidera desde 2021, com 12:49.

As ‘supersapatilhas’ servem para provas e treinos de alta intensidade. Mau uso pode causar lesões

Gonçalo Marta defende que as ‘supersapatilhas’ devem entrar em cena em momentos concretos: “durante a competição e durante treinos intervalados de maior intensidade, que precisem de ritmos mais elevados ou de um tipo de retorno de energia diferente”. Para quem corre por lazer, portanto, pode não ser a escolha mais sensata para dar apenas umas voltas no parque.

A forma de correr é, em muitos casos, uma espécie de impressão digital - e o calçado precisa de estar alinhado com essa mecânica para reduzir o risco de lesão. Margarida Feliciano, fisioterapeuta do Sporting, tem vindo a notar isso na prática: desde a explosão das ‘supersapatilhas’, diz ter recebido “queixas mais frequentes”.

Entre os problemas mais repetidos está a tendinite de Aquiles. Os joelhos também pagam a fatura de erros na escolha e no uso do calçado. Há, por exemplo, o chamado joelho do corredor (síndrome patelofemoral), que envolve desgaste da cartilagem. A dor surge na parte anterior do joelho e pode estar associada a desalinhamento.

Outro ponto a vigiar é o suporte da arcada plantar - dito de forma simples, assegurar que a zona côncava do pé está suficientemente apoiada para evitar que os joelhos rodem para dentro. Quando “as estruturas não estão preparadas”, acrescenta Margarida Feliciano, abrem-se portas às fraturas de stress, com a tíbia e os metatarsos entre os locais onde podem aparecer.

Para evitar uma entrada direta no sofrimento, é “importantíssimo fazer uma boa ativação antes da corrida para os músculos e tendões já estarem preparados”. A fisioterapeuta aconselha ainda trabalho preventivo “específico para os músculos intrínsecos do pé” e para “os estabilizadores do joelho, principalmente da cadeia lateral”, de forma a assegurar maior estabilidade.

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