Os medicamentos populares para a diabetes e para a perda de peso, como o Ozempic, o Wegovy e o Mounjaro, podem ter efeitos profundos no corpo - mas que impacto terão no cérebro?
De forma geral, pensa-se que estes fármacos reduzem o apetite e aumentam a sensação de saciedade. Ainda assim, o modo exacto como conseguem esse efeito no cérebro humano continua pouco claro.
Ozempic, Wegovy e Mounjaro: o que se suspeita sobre o efeito no apetite
Uma primeira investigação em humanos, deste tipo, concluiu que a tirzepatida (nome comercial: Mounjaro) poderá modular um sinal cerebral específico, possivelmente ligado à desregulação do comportamento alimentar.
Tirzepatida (Mounjaro) e o núcleo accumbens: como o estudo foi feito
O estudo incluiu três participantes com obesidade grave, com dificuldade em controlar os hábitos alimentares e que não tinham respondido a tratamentos anteriores de perda de peso.
Quando os participantes lidavam com pensamentos intensos sobre comida ou com desejos repentinos (cravings), os investigadores observaram que uma região do cérebro chamada núcleo accumbens produzia sinais delta–teta mais fortes. Estes sinais fazem parte do sistema de recompensa no cérebro dos mamíferos.
Os três doentes já tinham sido submetidos a cirurgia bariátrica, mas continuavam a sentir uma preocupação angustiante e persistente com a comida. Dois dos participantes iniciaram estimulação cerebral profunda do núcleo accumbens, enquanto a terceira participante tinha sido prescrita com tirzepatida para a sua diabetes tipo 2.
A actividade cerebral foi registada nos três participantes através de eléctrodos inseridos no núcleo accumbens.
Evolução dos cravings ao longo dos meses e sinais delta–teta
Por coincidência, a terceira participante teve um aumento da dose de tirzepatida sensivelmente na mesma altura da cirurgia de implantação cerebral. Nos quatro meses seguintes - excluindo o primeiro -, a doente teve um número “profundamente” baixo de episódios de “preocupação alimentar grave”.
Durante esse período, quando surgiam cravings, a actividade delta–teta no núcleo accumbens era indistinguível dos momentos em que não existia “ruído de comida”.
Isto contrastou de forma marcada com o que se verificou nos outros participantes. No entanto, infelizmente, os benefícios não se mantiveram.
Entre cinco e sete meses após a cirurgia de implantação, a participante a tomar tirzepatida começou novamente a ter desejos crescentes e pensamentos intrusivos sobre comida, apesar de estar na dose máxima de tirzepatida.
Foi também nessa fase que as ondas delta–teta no seu núcleo accumbens voltaram a intensificar-se.
“Os nossos resultados levantam a possibilidade de esta oscilação na banda delta–teta poder servir como biomarcador de envolvimento do alvo, mas a sua relação com a preocupação com a comida justifica uma investigação mais controlada”, concluem os autores do estudo.
O Mounjaro, tal como o Wegovy e o Ozempic, pertence a uma classe de medicamentos que imitam uma hormona natural do organismo, reduzindo assim o apetite e abrandando a digestão.
Este estudo é muito preliminar. Sem um grupo de controlo, é limitado o que os cientistas podem inferir a partir destes resultados. Ainda assim, por ser uma das primeiras investigações em humanos sobre os efeitos do Mounjaro no cérebro, as conclusões poderão ajudar a orientar pesquisas futuras.
O estudo foi publicado na Nature Medicine.
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