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Muito antes do Vesúvio, Pompéia foi crivada pelo polybolos de Lucius Cornelius Sylla

Soldados romanos a operar um catapulta em frente a muralha de pedra com bolas de pedra empilhadas no chão.

Pompéia ficou para sempre associada ao ano 79 d.C., quando foi sufocada pela fúria do Vesúvio. No entanto, a cidade esteve perto de ver o seu destino selado muito antes - e não pela lava, mas pela violência de um conflito civil pouco conhecido do grande público: a Guerra Social (91–88 a.C.).

Nessa altura, Pompéia ainda não era uma cidade romana. Era uma comunidade de cultura osca e integrava os Socii (os aliados italianos de Roma). Apesar de terem derramado sangue pela República durante quase meio século desde a queda de Cartago em 146 a.C., estes aliados nunca receberam em troca a cidadania nem a protecção das leis romanas.

Pompéia na Guerra Social: o cerco de 89 a.C.

Em 89 a.C., a revolta de Pompéia contra essa injustiça levou Roma a reagir. O general Lucius Cornelius Sylla foi enviado para sitiar a cidade e esmagar a insurreição. Durante meses, as muralhas suportaram o bombardeamento persistente da artilharia romana - marcas que, ainda hoje, podem ser identificadas no perímetro defensivo.

Segundo campanhas de escavação conduzidas pela Universidade da Campânia, Sylla não se limitou às máquinas mais comuns. Os investigadores defendem que ele também recorreu a uma arma diferente para sustentar esta guerra de desgaste: o polybolos, uma peça de artilharia grega com uma cadência de tiro tão elevada que podia varrer as cortinas de muralha com projécteis a um ritmo estonteante. As conclusões foram publicadas a 26 de março de 2026, na revista Heritage.

O polybolos: uma metralhadora antes do tempo

A artilharia romana era eficaz, mas tinha um problema evidente: era lenta. No cerco a Pompéia, as máquinas preferidas eram a balista e o escorpião, engenhos de sítio baseados na torção de feixes de fibras animais para lançar virotes ou pedras. O ciclo de disparo era trabalhoso: retesar a corda, posicionar o projéctil, apontar, disparar e recomeçar do início. Um ritmo que dava aos defensores tempo para se abrigarem entre duas salvas.

As marcas nas muralhas e a identificação do polybolos

Ao estudarem o sector norte das fortificações, os investigadores encontraram vestígios que não encaixavam no padrão deixado por uma balista ou por um escorpião. Os levantamentos com laser 3D revelaram impactos em agrupamentos densos de perfurações quadrangulares, concentrados em “cachos” (ver abaixo). Já as balistas e os escorpiões tendiam a produzir marcas mais circulares e profundas, compatíveis com o impacto repetido de pedras pesadas.

Com recurso a modelação 3D e a imagiologia de alta resolução, a equipa concluiu, por isso, que Lucius Cornelius Sylla utilizou efectivamente o *polybolos*. Trata-se de um feito de engenharia grega, provavelmente inspirado no saber de Alexandria e transportado para solo itálico. Sylla não era conhecido pela delicadeza diplomática e não hesitava em adoptar tecnologias e recursos adversários sempre que servissem os seus objectivos.

O polybolos - expressão que se pode traduzir literalmente por "o lançador múltiplo" - não foi inventado por Sylla. A autoria é atribuída a um engenheiro grego reputado: Dionysios de Alexandria. Ainda assim, Lucius Cornelius Sylla percebeu bem o potencial letal desta arma, cujo funcionamento parece quase anacrónico.

A sua rapidez vinha de um sistema de alimentação: um reservatório colocado acima da estrutura principal armazenava várias flechas. Assim que um projéctil era disparado, o seguinte caía automaticamente na calha de tiro; em simultâneo, uma corrente de accionamento (a catena) movia uma came rotativa que libertava a corda exactamente no ponto de tensão máxima (ver imagem abaixo). Este ciclo mecânico permitia manter uma sequência contínua de disparos sem que o operador tivesse de manusear cada projéctil.

Por isso, o polybolos pode ser visto como a primeira arma automática da História, antecipando em quase dois milénios os mecanismos de repetição que viriam a transformar os campos de batalha da era moderna. A menor capacidade de perfuração era compensada por um fluxo ininterrupto de projécteis, aproximando-se do que hoje se entende como fogo de supressão. Enquanto os polybolos disparavam, não havia espaço para resposta: as muralhas de Pompéia ficaram submersas numa chuva de projécteis que não dava qualquer janela de tiro aos arqueiros oscos.

Depois do cerco: queda de Pompéia e abandono do polybolos

Não é possível determinar com exactidão até que ponto o uso do polybolos foi decisivo para Lucius Cornelius Sylla, mas é fácil imaginar que lhe terá conferido uma superioridade tecnológica incontornável durante o cerco. Pompéia caiu na primavera ou no verão de 89 a.C., foi conquistada por Roma e teve de aceitar uma rendição incondicional para evitar o massacre total da população.

Mais tarde, o polybolos acabou por ser abandonado: era demasiado caro de produzir, complexo de manter e consumia uma quantidade impressionante de munições. A máquina cedeu lugar a opções mais simples, e o exército romano acabou por preferir armas como o onagro ou a carrobalista.

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