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Saúde mental no TikTok: por que tantos estudantes ainda evitam psicólogos

Jovem conversa com terapeuta numa sala, gesticulando enquanto fala sentado num sofá cinzento.

A saúde mental tornou-se, de repente, assunto em todo o lado - no TikTok, em programas de conversa, em projectos escolares. Ainda assim, continua a ser assustador o número de jovens adultos que se envergonham de pedir ajuda. Uma estudante conta como cresceu a ouvir que psicólogos eram coisa de “malucos” - e porque é que hoje dá coragem a outras pessoas para darem exactamente esse passo.

Quando a força é confundida com silêncio

Nasrine, na casa dos vinte e poucos, representa bem uma geração inteira. Cresceu num ambiente onde se ouviam frases como: “aguenta”, “há quem esteja pior”, “nós somos fortes, isto resolve-se”. Queixar-se era visto como um luxo, chorar como sinal de fraqueza. Se havia problemas, a expectativa era simples: aguentar e seguir.

Quando ela própria entrou numa crise psicológica, percebeu o quão enraizada essa ideia estava dentro de si. Insónias, tristeza persistente, dificuldade de concentração - e, mesmo assim, convencia-se de que tinha de ultrapassar tudo sozinha. O discurso interno repetia-se: “Não exageres, os outros também conseguem.”

Sentia-se rodeada de pessoas - e, ainda assim, completamente sozinha.

Este sentimento é comum entre estudantes. Segundo um inquérito recente, mais de metade diz não se sentir psicologicamente saudável. E a questão torna-se ainda mais evidente quando se fala em apoio: uma parte significativa afirma que, mesmo com dificuldades, não recorreria aos serviços de aconselhamento da instituição. Não por falta de oferta - mas por vergonha, medo e incerteza.

“Psicólogos são para malucos” - preconceitos vindos da geração dos pais

Na família de Nasrine, havia uma frase que condensava essa atitude: psicólogos seriam apenas para “malucos”. Não era maldade; era uma imagem antiga do que é a terapia: quem lá vai é porque “já não bate bem”. Muitos pais conhecem a psicoterapia apenas por filmes ou por casos extremos.

Ainda assim, este tipo de frases deixa marca. A mensagem que chega a crianças e adolescentes é clara: se pedires ajuda, és fraco, doente, “diferente”. O resultado é o silêncio - até a pressão se tornar insuportável. Alguns acabam por abandonar o curso, isolar-se socialmente, ou refugiar-se no álcool, nos videojogos ou no scroll infinito no telemóvel.

  • Procurar ajuda = fraqueza: medo de ser rotulado como “pouco resiliente”
  • Ideia errada sobre a terapia: “vou ficar deitado num divã a falar sem fim da infância”
  • Vergonha: receio do que a família, amigos ou parceiro(a) possam pensar
  • Desconhecimento: muitos não sabem, ao certo, a quem se dirigir

Ao mesmo tempo, esses mesmos jovens passam horas a ver vídeos no TikTok com a hashtag #mentalhealth. Há quem fale abertamente de perturbações de ansiedade, depressão ou burnout. Histórias íntimas, humor negro, vídeos “POV” em que o caos interior é encenado em 30 segundos - os temas psicológicos já fazem parte do dia-a-dia online.

Do silêncio à palavra: o ponto de viragem

Para Nasrine, houve um momento em que ficou claro: assim não dava para continuar. A pressão do curso aumentava e, em paralelo, apertava o nó por dentro. Sentia que tinha de estar sempre a funcionar, a parecer forte por fora, enquanto por dentro tudo se desfazia.

Através de amigos, soube de uma iniciativa estudantil: uma linha telefónica anónima de escuta, de estudantes para estudantes. Sem médico, sem rótulos, sem ficha clínica - apenas pessoas da mesma faixa etária, familiarizadas com preocupações semelhantes. A ideia de ligar assustou-a no início. E se se expunha? E se do outro lado a julgavam?

Precisou de várias tentativas. Abriu separadores no computador, guardou o número, voltou a apagar. Até que, um dia, pegou no telemóvel e ligou. Do outro lado não estava alguém a analisá-la. Estava alguém a ouvir, a fazer perguntas, sem se rir e sem minimizar.

Pela primeira vez disse em voz alta: “Eu não estou bem.” E nada de terrível aconteceu.

A partir daí, a sua visão sobre pedir ajuda mudou por completo. Percebeu: é normal não estar a dar conta. É legítimo procurar apoio antes de tudo colapsar. E não, isso não torna ninguém “maluco” - torna a pessoa responsável.

Quando a ajuda se transforma em envolvimento

A experiência marcou-a de tal forma que, mais tarde, passou a colaborar como voluntária nessa mesma iniciativa. A estudante que sofria em silêncio tornou-se alguém que, de noite, atende chamadas e ampara outros - os que se fecham num quarto da residência universitária ou desesperam sozinhos numa cidade onde ainda não têm rede.

Fala com jovens que carregam na cabeça as mesmas frases que ela carregava antes: “não quero desiludir os meus pais”, “parece que todos os outros conseguem”, “não quero fazer drama”. O seu trabalho mostra que da vulnerabilidade pode nascer uma força enorme. Quem já foi levado a sério costuma sentir vontade de oferecer o mesmo a seguir.

Projectos de apoio entre pares têm vindo a ganhar peso. Reduzem a barreira para falar sobre sofrimento psicológico e, no melhor dos casos, encaminham para respostas profissionais - como psicoterapia, serviços de aconselhamento ou apoio médico.

Abertura digital, silêncio real: a contradição

Nas redes sociais, muitos adolescentes falam de forma surpreendentemente aberta sobre o que sentem. A frase “eu não estou bem” tornou-se quase um formato: sussurrada para a câmara, dita com ironia, com filtros e música por trás. Esta encenação pode aliviar, porque transmite: não sou a única a sentir isto.

Ao mesmo tempo, a conversa real em casa ou na universidade muitas vezes não acontece. Publicar um vídeo pode ser mais fácil do que dizer, com honestidade, à mesa: “eu já não aguento isto tudo.” Aqui está um dos grandes desafios: como transformar a abertura digital em conversas verdadeiras no quotidiano?

Online Offline
Hashtags, memes, clips curtos Conversas longas, pausas, perguntas
Reacções rápidas, likes Apoio concreto, proximidade real
Anonimato, distância Compromisso, risco pessoal

O que os pais podem fazer de forma diferente hoje

A nova geração põe em palavras temas que muitos pais, no passado, preferiram empurrar para o lado. Isso pode causar desconforto. Há mães e pais que não sabem como responder quando o filho fala de ataques de pânico, pressão no curso ou um vazio interior.

Especialistas sublinham: não são necessárias respostas perfeitas. O que conta é a postura. No dia-a-dia, alguns pontos ajudam:

  • Conversar cedo: não esperar que as notas caiam ou que haja “explosões”. Perguntar com regularidade como a pessoa está por dentro.
  • Ouvir sem julgamento: frases como “não exageres” ou “na tua idade nós é que passámos dificuldades” fecham a porta à honestidade.
  • Assumir limites: os pais podem dizer: “não sei como te ajudar - vamos procurar apoio juntos.”
  • Normalizar a ajuda: falar de aconselhamento, terapia ou coaching como opções normais, tal como se vai ao médico por sintomas físicos.
  • Criar rotinas: horários de refeições, caminhadas em conjunto ou pequenos rituais podem abrir espaço para falar, sem pressão.

Quem actua assim transmite uma mensagem inequívoca: não tens de funcionar como uma máquina. Podes falar de preocupações sem medo de gozo ou desvalorização.

O que a terapia significa, na prática, hoje

Muitos preconceitos vêm de uma ideia ultrapassada de psicoterapia. As respostas actuais são variadas e, muitas vezes, bem mais pragmáticas do que se imagina. Não se trata necessariamente de “esgravatar” eternamente na infância, mas de conversas estruturadas, estratégias concretas e ferramentas para o quotidiano.

Objectivos típicos podem incluir:

  • identificar padrões de pensamento que alimentam stress constante
  • aprender a definir limites - no curso, no trabalho, nas relações
  • treinar formas de lidar com ansiedade de exames e pressão de desempenho
  • construir rotinas saudáveis de sono e de vida diária
  • nomear e regular emoções, em vez de as engolir

Para estudantes, existem frequentemente opções de acesso mais simples: serviços de aconselhamento psicológico das universidades, linhas de apoio, apoio online ou, como neste caso, iniciativas de estudantes para estudantes. Quem procura informação percebe depressa: o caminho até à ajuda costuma estar mais perto do que parece.

Porque não é fraqueza não estar a “dar conta”

Curso, crise de habitação, part-time, ansiedade com o futuro, pressão das redes sociais - hoje, os jovens adultos vivem sob muitas expectativas ao mesmo tempo. Muitos tentam brilhar em todas as frentes: na universidade, com amigos, no Instagram. Por fora parece estabilidade; por dentro, muitas vezes, é o contrário.

Quem quebra com este peso não é “mole” nem “pouco resistente”. Está a reagir a uma sobrecarga real. Sintomas psicológicos são sinais de alarme do corpo, comparáveis a uma febre numa infecção. Ninguém chamaria “fraqueza de carácter” à febre.

Se uma mãe ou um pai ainda disser que terapia é só “para malucos”, vale a pena um contra-argumento calmo: talvez hoje o mais “maluco” seja fingir que se aguenta todo este stress sem qualquer apoio.

O caminho para sair do tabu começa muitas vezes com uma única frase dita em voz alta - seja numa linha telefónica de apoio entre estudantes, na cozinha em casa dos pais, ou na primeira consulta: “Eu não estou bem, e quero mudar isso.” É a partir dessa frase que podem crescer uma nova força e uma ligação mais verdadeira.


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