Uma mala esquecida num cofre bancário no Canadá, aberta apenas depois de mais de 100 anos, trouxe à luz joias e tesouros reais célebres que muitos julgavam perdidos para sempre.
Tratava-se da coleção privada de joalharia da família Habsburgo, cujo elemento mais valioso era um diamante amarelo-claro com pouco menos de 28 gramas.
A mala pertenceu à imperatriz Zita, a última imperatriz da Áustria-Hungria, e acompanhou a família enquanto fugia por uma Europa marcada por guerra, revolução e ditadura.
Nascida numa família ducal italiana, Zita casou-se com o arquiduque Karl da Áustria em 1911 e acabaria por se tornar imperatriz nos derradeiros anos da monarquia dos Habsburgo.
Karl von Habsburg-Lothringen, neto da imperatriz Zita, assumiu a liderança na revelação da mala e do seu conteúdo. Defende que as joias devem agora ficar sob a gestão de um fundo fiduciário.
Rastrear as joias dos Habsburgo
Em 1940, quando as tropas alemãs entraram na Bélgica, Zita e os filhos conseguiram sair do país em poucas horas, escapando à detenção.
A partir daí, seguiram viagem por Portugal e, mais tarde, embarcaram para o Canadá. A família acabou por se fixar no Quebeque para que os filhos mais novos pudessem estudar em francês.
Zita indicou a familiares onde a mala tinha ficado guardada e pediu-lhes que mantivessem segredo até perfazerem 100 anos sobre a morte do imperador Karl, em 1922.
Esse compromisso passou de geração em geração, até que, finalmente, abriram o cofre e pediram a um especialista que avaliasse o que ali permanecera escondido.
O Diamante Florentino
O Diamante Florentino entrou na história europeia nas cortes italianas, onde a família Medici o exibiu antes de, por via de um casamento, passar a integrar a coleção de joias dos Habsburgo.
No século XVIII, tornou-se parte das joias da Coroa austríaca e figurou em trajes cerimoniais usados por governantes, incluindo a imperatriz Maria Teresa.
Medições modernas descrevem a pedra com cerca de 137 quilates e uma tonalidade amarelo-pálida. Durante décadas, gemólogos caracterizaram o Diamante Florentino como uma pedra lapidada em dupla rosa, um estilo de facetas com pequenas faces triangulares em ambos os lados.
Após a Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Austro-Húngaro, o imperador Karl enviou muitas joias da família para a Suíça.
Pouco depois, o Diamante Florentino desapareceu dos registos públicos e começaram a circular versões de que teria sido roubado, recortado (repolido e relapidado) ou vendido em segredo.
Além do diamante, a mala de Zita guardava insígnias com pedras preciosas, alfinetes de chapéu nas cores nacionais húngaras e laços ornamentados com diamantes de lapidação antiga e safiras amarelas.
Cada peça contém indícios sobre uniformes, rituais e gostos da época, o que ajuda historiadores a associar as joias a retratos e descrições escritas desse período.
As joias dos Habsburgo chegam ao Canadá
Na cidade do Quebeque, Zita escolheu para os filhos uma universidade católica francófona e instalou a família no subúrbio de Sillery.
A vida ali manteve-se modesta, mas ela deu conferências e reforçou contactos com apoiantes, enquanto os filhos trabalhavam na América do Norte em prol da causa dos Aliados.
Já no Canadá, Zita colocou a mala num cofre de aluguer num banco, optando por não dizer aos funcionários o que estava no interior.
As gerações seguintes continuaram a pagar as taxas de aluguer e respeitaram o pedido de discrição, mesmo quando académicos e jornalistas especulavam sobre o desaparecimento do diamante.
“É nosso desejo sincero tornar acessível ao público a nossa joalharia privada de relevância histórica”, afirmou o arquiduque Habsburg.
Sublinhou ainda que expor as joias dos Habsburgo no Canadá é uma forma de agradecer ao país que acolheu a sua família durante a guerra.
A família irá emprestar as joias para uma exposição num museu canadiano e, depois, as peças regressarão ao armazenamento, sem serem vendidas.
Entretanto, autoridades austríacas estão a analisar a questão de quem deve ser o proprietário do Diamante Florentino - um tema que pode desencadear disputas sobre heranças de família e a autoridade do Estado.
Lições das joias dos Habsburgo
Para historiadores, observar o diamante e as restantes joias dos Habsburgo confirma que alguns objetos que tinham sido tratados como lendas ou rumores, afinal, sobreviveram ao século XX.
Objetos físicos conseguem revelar pormenores que a documentação escrita não capta, incluindo a qualidade do metal, marcas de desgaste e reparações que sugerem como cada peça foi usada.
Para cientistas que estudam gemas, ter acesso à pedra possibilita testes não destrutivos para verificar se a sua química é compatível com jazidas de diamantes na Índia.
Instrumentos atuais conseguem medir elementos vestigiais - quantidades ínfimas de átomos no interior do diamante - e registar a geometria das facetas, permitindo testar hipóteses sobre a sua origem.
Para juristas e especialistas em ética, o caso levanta questões difíceis sobre quando a propriedade real deve ser encarada como património nacional e colocada em instituições públicas.
As respostas variam de país para país, mas cada objeto redescoberto obriga governos, museus e famílias a justificar, com maior detalhe, as opções que tomam.
A história liga a sobrevivência de um único objeto a temas como guerra, migração e as escolhas familiares entre recordar ou ocultar o passado.
Quando o Diamante Florentino sair da mala e for colocado numa vitrina de museu no Canadá, deixa de ser um plano de fuga privado para se tornar prova partilhada de como poder, arte e identidade atravessaram continentes.
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